Balança comercial de abril não foi afetada pelo setor externo

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Balança comercial de abril não foi afetada pelo setor externo (Foto: Divulgação) Balança comercial de abril não foi afetada pelo setor externo

Os sucessivos superávits da balança comercial contribuem para o acúmulo das reservas internacionais que estão ao redor de US$ 380 bilhões, segundo dados da Fundação Getulio Vargas (FGV). Esse resultado é destacado como um dos fatores que reduzem o grau de vulnerabilidade da economia brasileira. No entanto, a partir do mês de abril alguns acontecimentos começaram a lançar dúvidas sobre o futuro desempenho da balança comercial.

O primeiro se refere ao anúncio, em 1º de maio, de que os Estados Unidos irão sobretaxar ou negociar cotas para as exportações brasileiras de produtos siderúrgicos e de alumínio. O total desses produtos representam 1% do total das exportações brasileiras. O segundo se refere a um possível recuo no crescimento econômico da Argentina e, logo, uma queda nas exportações brasileiras para esse mercado. 

Nesse caso, o principal setor afetado seria o automobilístico. No acumulado até abril de 2018, 79% das vendas externas de automóveis foram para a Argentina e a participação das vendas de automóveis no total das exportações brasileiras é de 2,8%. Nesses dois casos, setores saem prejudicados, mas a melhora no desempenho de outros produtos poderá compensar essa perda. O terceiro é a instabilidade cambial que eleva o grau de incerteza nas decisões dos operadores de comércio exterior.

Entre janeiro e abril de 2018, o índice da taxa de câmbio efetiva real se desvalorizou 7%, na comparação do acumulado até abril entre 2017 e 2018, a desvalorização foi de 9,7% e, entre o acumulado até abril entre 2016 e 2018, houve valorização de 14%. Logo há uma tendência de desvalorização real, mas ainda distante do efeito de 2016. Somando a esses resultados, a instabilidade nominal do câmbio e possíveis efeitos da desvalorização nominal na taxa de inflação, o cenário cambial poderá elevar o grau de incerteza nas operações de comércio exterior.

Os resultados da balança comercial até abril, porém, não foram afetados por essas “turbulências”. O saldo da balança comercial foi de US$ 6,1 bilhões e no acumulado do ano de US$ 20,4 bilhões próximo ao de igual período em 2017, US$ 21,3 bilhões.

Entre os meses de abril de 2017 e 2018, as exportações aumentaram 12,7% e as importações 28,7%. No acumulado do ano até abril entre 2017/2018, o crescimento foi de 9,6% para as exportações e 15,9% para as importações. O aumento das importações supera o das exportações e um dos fatores que contribuiriam para esse resultado seria a retomada do crescimento econômico do país, após recuos no PIB da ordem de 3,5% em 2015/16. No entanto, é preciso analisar a composição desses aumentos a partir dos índices de preços e volume dos fluxos de comércio.

Entre 2016/2017, a variação do volume exportado tendeu a superar a do volume importado em quase todos os meses do ano. Em 2018, o resultado se inverte e o volume importado supera o das exportações. Assim, entre abril de 2017/18, o volume exportado recuou 3,5% e na comparação do acumulado caiu 4%. Na comparação mensal, o volume importado cresceu 8,2% e no acumulado aumentou 1,1%.

A análise por tipo de indústria mostra que em termos de volume exportado, o setor agropecuário registra as maiores variações. Na comparação do acumulado até abril, o volume exportado da agropecuária foi de 4,2%, da indústria de transformação, 1,2% e a indústria extrativa recuou 28%. No caso dos preços, houve recuo na agro (-2,2%), ganho de 40,8% na extrativa e de 11,4% na transformação. O aumento acentuado nos preços da extrativa está principalmente associado ao crescimento dos preços e petróleo e derivados.

A mesma análise para as importações por tipo de indústria ressalta o aumento em volume da indústria de transformação (11,6% na comparação mensal e 3,5% na do acumulado) e retração ou aumento abaixo de 1%, como no caso da agropecuária na comparação mensal. Nenhuma surpresa, as importações brasileiras se concentram em bens demandados pela indústria de transformação.

A liderança cabe à indústria de bens de capital e de consumo semiduráveis. No primeiro grupo estão segmentos do setor automotivo, como veículos de carga e as plataformas de petróleo. As plataformas registram aumento de mais de 500% em termos de volume na comparação do acumulado até abril de 2017/18.

A recuperação do nível de atividade da economia está associada a uma maior demanda por bens intermediários e num cenário de expectativas favoráveis, de aumento pelos bens de capita. As importações dessas duas categorias devem aumentar.

A demanda por importações dos bens que compõem a Formação Bruta de Capital Fixo da Economia cresceu 25,5% na comparação do acumulado do ano até abril (2017/2018) e 5,7% na mensal (abril 2017/18). Dividimos a demanda por bens de capital entre o setor agropecuário e o da transformação. Embora a indústria de transformação registre resultados positivos, o setor agropecuário registra crescimentos acima de 100%. 

As importações por bens intermediários recuam em termos de volume no setor agropecuário e aumenta na comparação mensal na indústria de transformação (4,2%), mas cai na comparação do acumulado. No caso da agropecuária, os resultados para os bens intermediários podem ser explicados por fatores sazonais associados ao tempo de plantio. Já o crescimento nas importações de bens de capital estaria associado a antecipações de aumento de estoque de capital face a possíveis desvalorizações cambias e ganhos cm a safra atual.

Na indústria de transformação, o resultado positivo na variação das importações de bens intermediários para abril indica aumento no nível de atividade e o aumento nas compras de bens de capital indicaria expectativas positivas quanto ao aumento da demanda.

Todas essas considerações, entretanto, devem ser qualificadas com o cenário de instabilidade cambial. Os aumentos de compras em abril podem ser antecipações de compras num cenário de tendência de desvalorização cambial.

Em suma, a análise da balança comercial até abril sugere que projeções de saldos ao redor de US$ 50 bilhões continuam factíveis, apesar das turbulências no cenário internacional.